O flyfisherman brasileiro que conquistou o oriente
 

Por: Por Salgado Filho


       A entrevista abaixo, foi realizada a algum tempo atrás e publicada na REVISTA PESCA e agora publicada aqui para quem não tenha tido oportunidade de ler e conhecer um pouco a respeito de Gerson Kavamoto.
 
       Complementando, hoje Gerson está radicado no Brasil já a mais de um ano e a partir de agora é mais um colaborador BARRACUDA TEAM.
 
       Pouco conhecido em nosso país, brasileiro se projeta no Japão como guia de pesca com mosca e instrutor de arremessos rolados de longa distância (roll cast).

 

       Fanático por pesca desde os 5 anos de idade, Gerson Pereira Kavamoto (38 anos) como tantos outros brasileiros que sonham com dias melhores, foi trabalhar no Japão em 1992. Por ironia do destino, foi lá que teve seu primeiro contato com a pesca com moscas.
 
       E foi o que se pode chamar de paixão a primeira vista, pois desde então se envolveu tão intensamente com essa modalidade, que sua vida tomou um rumo inesperado. Hoje em dia ele é um dos pescadores mais bem conceituados na Terra do Sol Nascente. Do Japão, onde mora, Kavamoto nos concedeu esta entrevista onde fala sobre diversos aspectos de sua vida, dos lugares onde pescou pelo mundo, das pessoas que conheceu e do arremesso rolado de longa distância, um estilo de lançamento pouco conhecido pelos brasileiros.
 
       Pesca: E qual foi a sensação de poder repetir o feito do célebre pescador brasileiro que o motivou a praticar essa modalidade?
 
       Kavamoto – Considero como a realização de um sonho, pois para a maioria dos pescadores, poder pescar um Tarpon com equipamento de mosca é algo tão cobiçado, como ganhar a medalha de ouro em uma olimpíada.

 
 

       Pesca: Como conseguiu encontrar tempo para se desenvolver como pescador de mosca?
 
       Kavamoto – O problema nunca foi o tempo, e sim me acostumar com o ritmo de vida no Japão e com as diferenças culturais. Atualmente já estou plenamente adaptado, e como sempre tive algumas folgas por ano, aproveitava esse tempo para pescar e aprender.
 
       Pesca: O que mais lhe entusiasmou a mergulhar no universo da pesca com moscas?
 
       Kavamoto – Sempre gostei de pescar, mas essa modalidade me mostrou um mundo novo e ilimitado. Quanto mais pescamos, maior é o número de amizades que fazemos, e os novos amigos nos trazem novos conhecimentos. Também me senti atraído pela simplicidade dos equipamentos, pela valorização das habilidades manuais e pelos cenários onde essa modalidade é praticada. Assim como tem quem goste de cavalgar, de correr de MotoCross, de voar com planadores, etc., me sinto satisfeito quando pesco com equipamento de mosca, portanto é uma questão de satisfação pessoal.

 
 

       Pesca: Entre os lugares que você já teve a oportunidade de conhecer e pescar, de qual deles guarda as melhores recordações e por quê?
 
       Kavamoto – Sem dúvida o South Mavora Lake (lago sul do Mavora) na Nova Zelândia. Trata-se de um lugar lindo com águas cristalinas e rasas, igual os flats da Flórida, onde é possível pescar trutas com as mesmas técnicas usadas para o Bonefish.
 
       Na verdade existem dois Mavora, o maior fica voltado para o norte e dele corre um rio com cerca de um quilômetro de comprimento que forma o lago do sul (neste, ao contrário do outro, não é permitido usar barco motorizado). O lago norte do Mavora é tão bonito que foi cenário do filme Lord of the Rings.
 
       Pesca: É verdade que você é sócio do Guilherme, o brasileiro que atua como guia em Miami e que desfruta de grande prestígio entre os pescadores de Tarpon?
 
       Kavamoto – Sim, nos conhecemos em 1997 através da internet quando fazia os preparativos para outra pescaria nos EUA. Tinha reservado saídas com vários guias, mas o tempo virou e tivemos que cancelar duas. Nessa época ele era dono de um barquinho de alumínio que usava para pescar Tucunarés nos canais de Miami, e como fiquei com tempo ocioso, aproveitei para ir a Miami conhecê-lo pessoalmente. Nos demos tão bem, que o convidei para me acompanhar em algumas pescarias nos flats. Foi quando cogitamos de fazer a sociedade: como a pesca nos flats requer barco específico para águas rasas, e os guias de lá - considerados os melhores do mundo - também primam pela prepotência (a maioria não embarca um Tarpon sequer para fotos), além do fato de não ser uma pescaria barata, a idéia de comprar o barco foi conseqόência.

 

       Pesca: Em que época você percebeu que poderia deixar a vida de operário nas fábricas do Japão para se tornar guia de pesca?
 
       Kavamoto – Devo isto ao meu mestre, mentor e grande amigo Kenji Sugisaka, um dos mais respeitados pescadores do Japão, campeão de arremesso em distância, especialista em match the hatch, um dos ícones do fly fishing japonês e que também apresenta o programa de pesca Hyper Expert no canal Fishing- Vision. Foi com ele que aprendi boa parte do que sei hoje, e também foi ele quem viabilizou o principal de tudo: os clientes.

 

       Pesca: Quais as maiores lições que você aprendeu trabalhando como guia de pesca?
 
       Kavamoto – A maior delas foi entender que, independentemente do equipamento que usa ou da maneira como pesca, todo pescador que consegue obter bons resultados está taxativamente correto, ou seja: não existe certo ou errado, não existe vara ou carretilha melhor ou pior. A diferença está na pecinha que empunha o equipamento. Também entendi que a satisfação pessoal de um pescador é algo muito subjetivo, de modo que nem sempre o que o guia pensa ser o melhor, tem o mesmo significado para o pescador. O lado negativo que aprendi é que, uma vez que a pescaria vira trabalho, acaba a diversão. Nos dois últimos anos que guiei tive poucos dias de folga e praticamente nem pesquei, só trabalho mesmo!

 
 
 

       Pesca: Sua carreira como guia de pesca foi muito curta, por quê?
 
       Kavamoto – A vida é assim mesmo. Na medida em que crescemos profissionalmente e conseguimos atingir nossas metas, os objetivos vão mudando. Parei porque cheguei onde queria e achei que estava na hora de construir uma família. E com o nascimento da minha filha não tinha como continuar viajando como antes.
 
       Pesca: Atualmente qual é o seu envolvimento profissional com o meio da pesca?
 
       Kavamoto – Estou gerenciando os produtos desenvolvidos pelo Kenji Sugisaka e ajudando a desenvolver outros específicos para a pesca com moscas. O primeiro será uma linha de fly cujos diferenciais são o formato, o tamanho, o peso e o preço. Quando sobra tempo, também ministro cursos e palestras.

 

       Pesca: Você é conhecido como um mestre na técnica da pesca sem esforço físico. O que isso significa?
 
       Kavamoto – Meu berço no fly é o praticado pela maioria dos japoneses, que provém dos conceitos de Charles Ritz, um dos grandes influenciadores do fly fishing moderno. Ritz desenvolveu um estilo no qual levantando e abaixando o cotovelo sincronizando com movimentos do pulso, o pescador é capaz de pescar sem gastar muita energia. Atualmente 80% dos pescadores japoneses pescam da maneira descrita por ele. Nos EUA uma das lendas viva do fly fishing, Joan Wulff, tem um estilo de arremesso similar: fazer a vara trabalhar pelo pescador.
 
       Pesca: E para fazer esse tipo de arremesso é necessário equipamento específico?
 
       Kavamoto – Não, esse estilo pode ser aplicado com qualquer equipamento, o que muda é a maneira de carregar e descarregar a vara, ou seja: o modo de fazer com que ela trabalhe.
 
       Pesca: E quanto ao famoso arremesso rolado de longa distância, é difícil de ser realizado. E qual equipamento é indicado para essa técnica?
 
       Kavamoto – Pode ser realizado com qualquer equipamento, porém, quando feitos com varas de mão dupla e de 15 pés atingem facilmente 45 metros. Com as de 9 pés chegam a 35 metros.
 
       Pesca: Você acha que ainda há muito espaço para evoluir em se tratando de arremessos com moscas?
 
       Kavamoto – Sim, pois a cada dia temos novos materiais no mercado que criam inúmeras possibilidades.
 
       Pesca: Para finalizar, quando você vem para o Brasil e quais os projetos por aqui?
 
       Kavamoto – Vou ao Brasil no início de julho e fico até o final de agosto. Nesse período tenho vários projetos, um deles é passar a técnica do spey casting e do shooting spey que é febre por aqui.